
Respirar ar rarefeito – como o encontrado no topo de grandes montanhas – costuma ser desgastante para o organismo. Mas um estudo conduzido na Universidade Estadual Paulista (Unesp) mostrou que a exposição controlada e em pequenos intervalos ao ar com baixa oxigenação é segura, não prejudica o sono e pode modular hormônios e marcadores associados à inflamação em pessoas com doença de Parkinson. Os resultados preliminares abrem caminho para investigações mais aprofundadas sobre o uso da técnica como terapia complementar para a condição.
Chamada cientificamente de hipóxia intermitente, a abordagem busca estimular respostas adaptativas do corpo sem sobrecarregá-lo. “Os resultados iniciais indicam que a técnica ativa mecanismos de proteção que podem beneficiar pessoas com Parkinson de modo seguro, sem causar efeitos adversos. Isso é importante, pois nos permite realizar investigações com um maior número de voluntários e também com protocolos de longo prazo, que avaliem os efeitos de sessões repetidas”, afirma Fabio Barbieri, coordenador do Laboratório de Pesquisa em Movimento Humano (Movi-Lab) e do projeto de extensão Ativa Parkinson na Unesp de Bauru, que liderou a investigação.
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Estima-se que 11 milhões de pessoas no mundo tenham a doença de Parkinson. Caracterizada pela degeneração progressiva de neurônios produtores de dopamina – neurotransmissor essencial para o controle dos movimentos –, a condição provoca sintomas motores bem conhecidos, como tremores, rigidez muscular e lentidão, mas também desencadeia manifestações não motoras importantes, incluindo alterações metabólicas, processos inflamatórios e distúrbios do sono.
Como explica Barbieri, medicamentos ajudam no manejo da enfermidade, mas não promovem as modificações metabólicas e anti-inflamatórias necessárias para aliviar todos os sintomas. “Atualmente, o exercício físico é a única estratégia disponível que consegue melhorar as manifestações clínicas. Por isso, é interessante descobrir se a hipóxia controlada teria um efeito parecido, tornando-se um tratamento complementar ao exercício físico. De maneira nenhuma estamos falando em cura da doença de Parkinson ou de uma abordagem que substitua qualquer outro tratamento”, ressalta o pesquisador.
Publicado em agosto na revista Parkinsonism & Related Disorders e apoiado pela FAPESP, o estudo contou com a participação de 30 voluntários – metade afetada pela doença de Parkinson e a outra metade saudável. No experimento, que durou 39 minutos, eles utilizaram máscaras e equipamentos que intercalavam quatro ciclos de seis minutos respirando ar com apenas 10% de concentração de oxigênio (equivalente a 5.800 metros de altitude) e três intervalos de cinco minutos respirando ar normal (21% de oxigênio). Em outro dia, para comparação, os mesmos voluntários passaram por uma sessão-controle respirando apenas ar normal durante todo o tempo.
Os pesquisadores observaram que, nos voluntários com Parkinson, uma única sessão de hipóxia intermitente foi suficiente para reduzir, momentaneamente, os níveis de cortisol (hormônio associado ao estresse) e de leptina (hormônio produzido pelo tecido adiposo que atua no controle do metabolismo e da saciedade, mas que em excesso favorece processos inflamatórios). Além disso, houve um aumento sustentado da adiponectina – substância de ação anti-inflamatória que costuma ficar desregulada na doença de Parkinson –, efeito que se manteve mesmo 24 horas após o experimento.
Segundo Murilo Henrique Faria, primeiro autor do estudo e bolsista da FAPESP, o desequilíbrio nessas três substâncias costuma estar ligado à inflamação no cérebro, a desajustes hormonais e a problemas para dormir comuns na doença. “Portanto, nossos resultados demonstram que o uso da hipóxia intermitente pode modular o metabolismo, o que possivelmente desencadeia efeitos positivos no comportamento de sono em pessoas com doença de Parkinson”, afirma.
Entre os autores, havia o receio de que a hipóxia pudesse causar despertares ou insônia, mas não foi o que o experimento mostrou. “Uma única sessão de hipóxia intermitente não alterou parâmetros gerais do sono [como número de despertares ou tempo para adormecer], tanto nas pessoas com doença de Parkinson quanto nos voluntários saudáveis”, conta Faria.
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De acordo com Barbieri, embora uma sessão do protocolo tenha sido suficiente para modificar biomarcadores no sangue, como reduzir o cortisol e aumentar a adiponectina, ela pode ter sido insuficiente para reorganizar o ciclo de sono-vigília. “Daí a necessidade de estudos mais aprofundados e com maior duração”, diz.
O estudo também confirmou que o procedimento não alterou as taxas de ferro no sangue nem elevou os níveis de interleucina 6 (molécula que estimula processos inflamatórios), reforçando a segurança do método. Além disso, ajudou a preservar a concentração da proteína BDNF (sigla em inglês para fator neurotrófico derivado do cérebro), essencial para a proteção e a sobrevivência dos neurônios. “Manter os níveis de BDNF estáveis é um resultado relevante, pois essa proteína costuma cair durante períodos de inatividade física – queda que de fato ocorreu quando os pacientes passaram pela sessão-controle respirando ar normal. A hipóxia intermitente conseguiu evitar esse declínio ao mesmo tempo em que aumentou a adiponectina, o que abre caminho para novas investigações”, afirma Faria.
O motivo por trás desse efeito benéfico da hipóxia intermitente está em um conceito chamado hormese, a capacidade do organismo de se adaptar a pequenos estresses. “Usamos doses controladas de hipóxia para provocar adaptações positivas, algo que pode ajudar pessoas com doença de Parkinson”, explica Carlos Augusto Kalva-Filho, pesquisador de pós-doutorado na Faculdade de Ciências de Bauru (FC-Unesp) e coautor do estudo.
Ele conta que esse tipo de exposição ao ar simulado de elevada altitude, seja por meio de máscaras e equipamentos, seja por câmaras isoladas, costuma ser indicado para a preparação de atletas. “No entanto, poucos grupos de pesquisa no mundo investigam essa estratégia em pessoas com doença de Parkinson.”
O segredo, acrescenta o pesquisador, está na alternância entre ar rarefeito e ar normal e no controle rigoroso da dose. Esse estímulo na medida certa mantém ativa uma proteína chamada HIF-1α (fator induzido por hipóxia 1-alfa), que funciona como um sensor celular capaz de acionar mecanismos de proteção dos neurônios e otimizar a produção de energia nas células (o chamado metabolismo mitocondrial). “É esse controle preciso que gera o benefício. Portanto, não é o caso de simplesmente fugir para as montanhas”, brinca.
Kalva-Filho também explica que o efeito é muito diferente do chamado mal agudo da montanha, quando viajantes em grandes altitudes sentem dor de cabeça, náusea ou fadiga – e jogadores de futebol perdem o fôlego e o rendimento em campo. “Ao viajar para esses locais muito altos, o organismo sofre um estresse contínuo e prolongado, o que acaba sobrecarregando o corpo. Já no laboratório, tudo é controlado.”
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